SER TEMPLARIO HOJE - LOJA DOS TEMPLARIOS
- LOJA REI DAS ESPADAS
- há 4 horas
- 7 min de leitura
Não será uma douta dissertação sobre história templária, doutrina, filosofia ou mitologia do templarismo. Não. Preparai-vos para ouvir uma modesta reflexão pessoal, despida de qualquer intuito de requinte intelectual ou académico, uma reflexão terra-a-terra sobre questões, também elas muito prosaicas, com que nos deparamos no pequeno dia-a-dia das nossas vidas.
Proponho-me falar-vos sobre algo aparentemente já elucidado, mas que poucas vezes vemos explicitado numa linguagem vulgar: o que é ser templário, hoje. Dito de outra maneira: porquê ser templário, hoje?
A questão parece banal. Mas se ela tem resposta óbvia para nós, o mesmo não sucede lá fora, no quotidiano secular.
Por certo, já sucedeu a cada um de nós estar numa roda de amigos, vir à conversa o tema dos Templários e alguém perguntar, entre crédulo e incrédulo: mas os templários ainda existem?
Se os menos informados entre os profanos se abrem porventura ao esclarecimento, já outros, com um contacto fugaz com a existência da Ordem Templária, comentam com desdém ou ironia aquele único plano superficial que os seus olhos alcançam – e resumem a cavalaria templária aos mantos, às espadas e a um ritual que nunca presenciaram mas que lhes parece, na sua imaginação de preconceito, obsoleta e fora do seu espaço.
Para quem olha de fora e só enxerga a dramaturgia templária, este é o aspecto que mais perturba: como compreender que nos dias de hoje, todos feitos de cibernética e automatismo, nanotecnologia e inteligência artificial, haja quem se paramente com as vestes de há oitocentos anos e se apresente como cavaleiro sem cavalo, guardião de um Templo que não está lá, arauto de uma era que passou, segunda-via de uma Ordem extinta nesses dias remotos em que em Avignon pontificava Clemente V e reinava entre nós o longínquo Rei D. Dinis?
Como explicar ao céptico, ao cínico, ao homem materialista do nosso tempo a razão de ser – hoje – da Ordem Templária, dos ideais templários, do templarismo tal como nós o praticamos? Como fazê-lo compreender?
Antes de mais, observemos o que o homem céptico vê à superfície, e façamo-lo através dos seus próprios olhos. Ora ele só consegue enxergar as roupagens, uma ou outra palavra, um ou outro gesto.
E aqui reside o primeiro aspecto que importa deixar claro. É que, ao contrário do que a esse profano possa parecer, o templarismo moderno não é uma recriação cénica, não é um revivalismo folclórico. As vestes que usamos, as palavras que dizemos e os gestos que fazemos não são uma imitação barata dos templários de antanho. São, sim, uma emulação contemporânea da essência vivencial da Milícia do Templo, essência essa apenas recordada nos seus sinais identitários, na sua marca.
O manto branco é apanágio da Milícia Branca, que ontem como hoje se entrega à defesa da fé, do amor e da ecclesia, ecclesia que na antiguidade grega significou assembleia de cidadãos unidos por um comum desígnio espiritual, ecclesia que os cristãos adoptaram como o seu próprio nome de egrégora: igreja, com todos os valores sociais, morais, éticos e espirituais que lhe são inerentes, e que se aplicam a tudo e a toda a actividade humana.
Mas o manto que protege os valores da egrégora dos fiéis é também o manto que lembra ao cavaleiro que ele se encontra igualmente sob o desígnio espiritual do Alto, assim saiba ser digno dele. Branco de pureza e paz (na cor do tecido), vermelho do sangue derramado nas lutas do século (na cor da cruz), o manto templário é uma mensagem inequívoca sobre a missão de quem o enverga. E a esta simbologia junta-se a espada, arma também simbólica de que o cavaleiro há-de servir-se para o combate contra tudo o que possa representar o mal, o indigno, o iníquo – tanto na vida exterior, à sua volta, como dentro de si mesmo.
Já se vê, pelo que se disse, que está equivocado o cínico ou o céptico que viu na indumentária exterior do templário contemporâneo apenas um revivalismo cénico de algo morto.
O que ele pode ver, ontem, hoje e sempre, se olhar em profundidade, é a missão cavaleiresca inalterada. E nesse cavaleirismo ele pode ver dedicação, brio, denodo, nobreza, rectidão, generosidade, entrega, altruísmo, hombridade.
Dar-se-á então o caso de, nesta velha Ordem Templária, sermos todos perfeitos, de sermos exemplos modelares daquelas virtudes cavaleirescas? Não. Os ideais são estrelas do alto que nos guiam, não são factos consumados. O templário nunca dá a busca por encerrada, a obra por completa: procura sempre alcançar – e é nessa pulsão que ele emula o espírito de cruzada.
Se o profano cínico olhar com atenção, em cada templário não verá apenas o ser humano atado por vícios e defeitos próprios, que são comuns a todos os humanos: ele verá também alguém sempre disposto a partir. Noutros tempos, a evangelizar; no nosso tempo, a levar a boa nova da esperança, que é o motor de todas as acções que promovem o bem.
Noutros tempos, os Usos e Costumes da Nossa Ordem, tão bem analisados por José Medeiros, estipulavam as normas segundo as quais os freires haviam de praticar o serviço dos enfermos e, nos momentos litúrgicos próprios, o lava-pés. Muito mudou neste mundo, desde então. Mas estes dois actos, se não temos já de praticá-los literalmente, continuam a estar inscritos no nosso código: e por isso o templário está sempre pronto para o serviço dos outros, seja qual for a forma que esse serviço possa assumir modernamente. Daí o templário estar vinculado à caridade, à Caritas dos antigos.
O mesmo se aplica às obras de misericórdia que no século XVI vieram completar o breviário templário: tanto às obras materiais (dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, dar pousada aos peregrinos, assistir aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos) como às obras espirituais, não menos importantes (dar bons conselhos, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os tristes, perdoar as injúrias, sofrer com paciência as fraquezas do próximo, pedir a Deus por vivos e defuntos).
Poderíamos seguir todo este programa sem sermos templários? Certamente. É necessário ser templário para segui-lo? Certamente que não. A única diferença é que, para o templário, tal programa não é algo fortuito, ocasional, opcional: é uma missão de vida.
Para o templário inicial, o ponto de partida eram os reinos da Europa e o ponto de chegada era o Santo Sepulcro, a defesa de Jerusalém como Terra Santa. Para o templário de hoje, a missão permanece inalterada. Não sai dos reinos da Europa: sai de si mesmo, do seu conforto e do seu egoísmo. Não atravessa vales e montanhas montado no seu cavalo: cruza o tumultuoso mundo moderno munido dos instrumentos próprios do seu tempo. Não ruma a Jerusalém: o seu destino final é o coração da humanidade, em cada obra a que se entrega.
Na progressão dos tempos, o templário não ficou preso ao circunstancialismo de dias remotos: a circunstância é hoje outra.
Porque a guerra santa de ontem – é hoje a guerra contra tudo o que afasta o ser humano da dimensão espiritual e divina.
A vigília templária de ontem – é a consciência social de hoje.
O tesouro a guardar de ontem – são os valores de liberdade e dignidade de hoje.
Assim como o infiel de ontem – é o intolerante de hoje.
E a heresia de ontem – é a ignorância de hoje.
À Cavalaria espiritual de hoje, como à de ontem, está destinada a missão de perpetuar valores. Esta é a emulação que nos está destinada no século XXI.
— /// —
Mas não apenas pela emulação: também pela História o templário de hoje é o herdeiro, o continuador do templário de ontem.
É certo, já não vai montado no seu corcel por montes e vales. Com a passagem dos tempos e das gerações foi mudando, por etapas incessantes, a fisionomia da vida dos humanos. E de etapa em etapa chegámos à carruagem, ao balão, ao vapor, à electricidade, à combustão controlada, ao átomo.
O templário de hoje pode chegar às suas reuniões ao volante de um híbrido. Mas continua a trabalhar na sua Comenda, seguindo aqueles mesmos valores. E até para emular a prática fraterna de dividir a montada com um irmão, é ainda a dois e dois que os cavaleiros dos nossos dias fazem as suas entradas rituais. Para que não esqueça, para que nunca esqueça que ninguém existe só por si.
As instituições não são linhas rectas contínuas no embrenhado da História. Nenhuma o é. São com frequência linhas tracejadas, com curvas e intersecções, paralelas, tangentes e divergentes. Assim a história do templarismo. Desde o século XII, ela vem sendo tecida em padrões sucessivos, sempre com um mesmo fio a ligá-la. Foi Milícia do Templo, foi Milícia de Cristo, foi muitas e variadas milícias, militar e filantrópica, honorífica e monástica, sob nomes diversos e sob diversos regimes, oficialmente extinta um dia, reerguida no outro – mas entre nós nunca abandonou os seus ideais e nunca deixou de ter a sua cabeça em Tomar. Há entre os freires de 1118 e os honrados templários que hoje aqui se sentam uma linha vital que os identifica e une. A sua estirpe espiritual é una. Mesma a sua filiação.
E se tudo vai mudando, como de facto vem mudando inexoravelmente desde o big bang inicial, também o aspecto dos templários acompanha os tempos, umas vezes derivando na busca incessante, outras regressando a práticas ancestrais. É o nosso caso. Nesta era da cibernética e do automatismo, da nanotecnologia e da inteligência artificial, eis-vos hoje aqui, cavaleiros e damas, numa aparente inovação de género, mas afinal regressando à prática da Milícia inicial, em que ao lado dos freires havia freiras templárias, e tantas chegaram a ser em Portugal que foi preciso levantar-lhes em Tomar um local próprio para o seu recolhimento.
Foi esta constelação de valores, princípios e práticas (os quais aqui tentei visitar de forma prosaica) que me fez juntar humildemente a esta Comenda e declarar, de coração nas mãos: “Sim, também eu estou pronto a partir nesta cruzada dos dias de hoje”.
E ao fazê-lo recordei um poema que um sacerdote amigo me ensinou, era eu ainda rapazinho, que nunca mais esqueci e tem sido meu guia por toda a vida. Rezava assim:
“Se uma estrela te visitouNão a expulses da tua almaSe a sua luz te acenouPrepara o coração para a aventuraE parte durante a noite”
Jorge de Morais – Comenda de Santa Maria de Sintra (Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Jerusalém – OPCTJ)Sintra, 17 de Setembro de 2023





Comentários